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03 junho, 2012
sobre a vida e seus Instantes
ele entrou no carro e sentiu o silêncio que pesava, tão oposto ao estridente lá fora...seguiu devagar pelas ruas absolutamente inertes numa velocidade muito abaixo da ideal para quem vai sozinho pela vida. Dentre as possibilidades todas, escolheu a menos provável. Além de deixar o show mais cedo, iria mais cedo para casa.16 novembro, 2011
sobre religiões e preconceitos...
ELIANE BRUM - 14/11/2011 09h59 - Atualizado em 14/11/2011 09h59
A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico
A parábola do taxista e a intolerância. Reflexão a partir de uma conversa no trânsito de São Paulo. A expansão da fé evangélica está mudando “o homem cordial”?
ELIANE BRUM
documentarista. Ganhou mais
de 40 prêmios nacionais e
internacionais de reportagem.
É autora de um romance -
Uma Duas (LeYa) - e de três
livros de reportagem: Coluna
Prestes – O Avesso da Lenda
(Artes e Ofícios), A Vida Que
Ninguém Vê (Arquipélago
Editorial, Prêmio Jabuti 2007)
e O Olho da Rua (Globo).
E codiretora de dois
documentários: Uma História
Severina e Gretchen Filme
Estrada.
elianebrum@uol.com.br
@brumelianebrum
O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada...”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.
- Você é evangélico? – ela perguntou.
- Sou! – ele respondeu, animado.
- De que igreja?
- Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.
- De que religião você é?
- Eu não tenho religião. Sou ateia.
- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
- Deus me livre!
- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).
- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
- Por que as boas ações não salvam.
- Não?
- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
- Mas eu não quero ser salva.
- Deus me livre!
- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
- Acho que você é espírita.
- Não, já disse a você. Sou ateia.
- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto...
O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)
Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:
- Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
- Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.
Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.
A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.
Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.
Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.
É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.
Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.
Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.
Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.
Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.
Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.
Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.
(Eliane Brum escreve às segundas-feiras)
11 novembro, 2011
Contardo Calligaris: Homofobia e homossexualidade
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sobre o amor...

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11 setembro, 2011
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07 setembro, 2011
06 setembro, 2011
sobre os sonhos e as fantasias...
sobre os erros e os acertos...

Se você errou, peça desculpas, mas sinceras, fingir que se arrependeu não adianta.
Se errou, veja onde errou e conserte o erro, e a única forma de fazê-lo é sendo sincero a respeito dele.
Se acha que a pessoa exagerou por não acreditar que você é o centro do mundo e que o seu problema é maior que o de todo mundo, e que por ser grande demais você tem o direito de desrespeitar, tripudiar e ignorar a dor alheia, peça desculpas veementemente. Nada justifica sua intolerância.
Se tudo não passou de mal entendido, lembre-se que nós seres humanos usamos a linguagem como forma de nos comunicarmos e por si mesma a linguagem é relação, e não coisa em sí, e portanto pode ser falha. Seja claro, não fale nas entrelinhas, não espere que o outro adivinhe que depois de fazer uma grande besteira você percebeu isso e quer ser perdoado (muitas pessoas não conseguem nem falar essa palavra, sentem que serão menores ou menosprezadas por isso, e isso não é verdade, aceitar um erro é ser mais sábio que aquele que continua encontrando justificativas superficiais para ele), ou pior, que no fundo a pessoa quer que você finja que nada aconteceu. Pior erro comete aquele que não consegue compreender isso.
As pessoas erram, mas permanecer no erro é bobagem e tem consequências. Se a sua felicidade futura depende de refazer seus trajetos e mudar os rumos, mude, mas mude logo porque o tempo passa rápido e quando você perceber pode ser tarde demais.
Não adianta pedir para a pessoa ignorar o que passou, falem, discutam, briguem e sigam em frente. Fingir que algo não aconteceu nunca fez o problema desaparecer...em algum momento a sujeira sai de baixo do tapete e normalmente não há como colocá-la de volta. Melhor limpar logo toda a sujeira.
Certas coisas, por óbvias que são, não precisam ser ditas. Se você quer esquecer algo, a melhor forma de começar é não falando disso.
Certas coisas, mesmo óbvias, precisam ser ditas. Por mais que alguém saiba do amor do outro, é preciso demonstrar, e demonstrar de novo, e fazer de novo...Não há nada que dure para sempre, mas se for infinita enquanto durar, já é de grande valor. O poetinha tinha razão. Mas se acabou, acabou. Siga em frente e guarde pra si suas lembranças. Todo mundo as tem mas nem todos ficam expondo isso o tempo todo.
Se gosta dos seus amigos, diga a eles. Eu amo meus amigos que são mais que irmãos para mim. Eles serão sempre meu porto seguro em cada uma das minhas navegações, precisas ou não precisas. Eles entendem meus erros, compreendem minhas angústias e não as usam para me diminuir. Só isso já faz deles o bem maior que há no mundo.
Se escolheu um caminho, siga em frente. Fazer escolhas sempre é conquistar algo e perder algo. Não inventaram ainda jeito pra isso, e enquanto não inventarem, conforme-se. Eu sou a pessoa menos conformada do mundo, mas também entendo que certas coisas são indissolúveis. Se não depende de mim, paciência. Se depende, eu mudo. Faço e refaço o meu caminho, mas nunca olho para trás. Decisões tomadas, trajetos pensados, siga em frente.
Ouvir é das coisas mais difíceis para um ser humano mediano. Nós. Os sábios ouvem muito e falam pouco. Eu serei assim um dia.
Sua verdade, por ser sua, é importante, mas não é a única e provavelmente não é a melhor. Dialética é das coisas mais importantes que Platão inventou, e ele era um sábio. Pare de achar que sabe mais que todo mundo, humildade é fundamental.
O amor é o sentimento mais importante, mas sem respeito ele acaba. Seja pelo amigo, pelo filho, pelo amado...Amar é doar, e poucas pessoas estão prontas para isso. Se não estiver pronto, apresse-se. A vida passa e o que foi perdido nunca volta. Viver é viver agora.
05 setembro, 2011
...uma bailarina torta...
Baila baila bailarina
seu pax de deux ideal
baila bailarina baila
ri da vida, seja o sonho
rima pernas, braços e sorrisos,
lábios olhos e destino
enlaça em corpo ardente
desejoso de suas curvas
em suaves tons, vais e vem...
passa, volta, vive, solta
baila baila bailarina torta
mas só baila em fantasia
seja apenas noite, não dia
que só em fantasia baila
a fantasia de outrora
do pax de deux ideal
não torne pax de deux real
pois somente platonicamente
idealmente vive
quando ideal em real se torna
corta a carne e a fantasia é morta
e tu, bailarina torta



