Pesquisar este blog

Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador Platão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Platão. Mostrar todas as postagens

01 janeiro, 2011

sobre bom senso X senso comum

Eu gosto muito quando encontro pessoas que gostam de discutir assuntos os mais diversos, e acabei de deparando com uma pessoa assim no twitter, hoje. Seu nome é Mauricio, nós passamos boa tarde do dia discutindo o uso da palavra "culto" e "erudito" e ele escreveu um comentário sobre o meu texto no blog que eu reproduzo aqui (ele já está nos comentários, mas vou colocar aqui pra facilitar, já que pretendo continuar debatendo com ele)...Segue o texto dele:

Este debate me faz botar em pauta um outro termo, que eu acredito não ser usado da melhor forma. Em português temos o termo bom senso, que geralmente se faz correspondência ao termo em inglês "common sense", que traduzindo literalmente seria senso comum. Senso comum significa a percepção comum, ou seja, a percepção que a maioria das pessoas tem. É a "opinião da maioria", por assim dizer. No entanto, no meu ver, o "bom senso" deveria ser uma "percepção boa", ou seja, a mais lógica ou correta, e não a mais "popular". Posso imaginar que na maioria dos casos estas duas coisas chegam no mesmo resultado. No entanto, eventualmente, a opinião da maioria das pessoas não é a melhor alternativa. Por exemplo, a população querendo linchar o pai que supostamente jogou a filhinha pela janela do sexto andar. A maioria pode querer morte, mas o mais correto é punir de acordo com as leis. Neste caso fica claro o que eu acredito que deveria ser a diferença entre "senso comum" (matar o desgraçado por apedrejamento heheh ) e "bom senso" (prender e julgar normalmente). Nas minhas conversas com as pessoas ao meu redor, sou levado a crer que as pessoas realmente utilizam o termo "bom senso" no sentido de "senso comum", o que pode ser mais um caso de não usar o termo da forma mais adequada.

Eu gostaria muito de saber a tua opinião sobre isto. Não tenho nenhum título em filosofia ou letras. Acho que sou o objeto da tua tese de mestrado, querendo discutir coisas das quais não sou especialista. heheheh Mas, no meu ver, na pior das hipóteses eu vou aprender mais um pouco.

Aqui, segue meus pensamentos sobre o que ele disse:

Oi Mauricio! O seu nome é o mesmo de um grande amigo meu, espero ser um bom sinal!

Não precisa ser formado em filosofia para filosofar, você é prova disso! Acabou de fazer uma excelente colocação sobre um mau uso de palavras que, por estarem tão presentes em nosso meio, nem paramos para pensar sobre seus significados.

Meus estudos no mestrado foram sobre ética e política na filosofia antiga, especialmente em Platão. Minha hipótese era sobre a crítica que Platão fazia à democracia e aos sofistas. Resumidamente, ele dizia que, nas assembléias, enquanto para tratar de assuntos específicos se chamavam os especialistas, quando se tratava de falar sobre política, qualquer um podia dar a sua opinião e fazer valer tal opinião não se baseando na “verdade” da coisa, mas na retórica capaz de convencer a maioria, mesmo que aquilo não fosse o melhor para a cidade.

Explico: Se a cidade pretende construir um navio, a pessoa que vai opinar sobre isso é o construtor naval, se se pretende construir pontes, o arquiteto. Se um arquiteto quiser dar opinião sobre qual a melhor forma de se construir navios, ele será rechaçado, da mesma forma que um engenheiro naval não opina sobre pontes. Oras, diria Platão, se para assuntos como esses se procura sempre o embasamento de um especialista, por que no assunto mais importante, que é a política (já que dita os rumos de toda a cidade) qualquer pessoa pode tomar para si a palavra e convencer uma platéia incauta? Basicamente é uma crítica explícita à democracia. Eu colocaria que é mais ou menos isso que vivemos hoje. Não quer dizer que sou contra a democracia, ainda acho que, dentro do que teríamos como opção, é a menos ruim. O problema é que vivemos em uma pseudodemocracia onde uma pequena parcela da comunidade tem o domínio dos meios de comunicação e acaba dominando ideologicamente a maioria que vota sem conhecer de fato seus direitos e deveres, e quem está no poder pretende que esse cenário se mantenha para que eles possam se manter no poder (um resumo muito do parcial sobre o que eu estudei a respeito, só pra ilustrar minimamente).

Dessa maneira, apesar de cada cidadão brasileiro ter o direito de um, e apenas um, voto, e aparentemente possuir igualdade, na verdade o que acontece está muito longe de ser uma verdadeira democracia, já que esta pressupõe conhecimento, a “cultura” de que tanto falamos hoje. Se não for assim, a pessoa é facilmente manipulável.

Fiz toda essa preleção para falar sobre a questão do senso comum. Acho que você foi bastante feliz no que falou, e concordo plenamente. Nos acostumamos a achar que a opinião da maioria é a melhor, passamos a aceitá-la, nos deixamos levar por ela. O caso que você citou é muito claro e eu usei-o bastante em minhas aulas. Por mais que a pessoa tenha cometido um crime como aquele, nós, enquanto indivíduos, não temos o direito de fazer nada contra ele. Temos leis que devem ser seguidas se não quisermos voltar à barbárie. Não quer dizer que toda lei é boa e não pode ser melhorada, mas neste caso devemos mudar a lei (enquanto grupo, não individualmente), e não transgredi-la.

Sócrates fala, pela boca do Platão, sobre isso no seu livro Críton, onde a personagem homônima, seu amigo de longa data, tenta convencê-lo a fugir para se livrar da pena de morte que Sócrates recebera. Em belíssimas passagens Sócrates chama para um diálogo As leis, como se encarnadas, e trava com elas um debate sobre sua validade. Resumidamente, ele diz que a Lei em si não pode ser questionada, pois se assim fosse nenhuma lei seria reconhecida e assim não poderíamos viver em grupo. O que se pode fazer é questionar o bom ou mau uso destas, e, se for o caso, lutar em grupo para mudá-las. Isso me parece que foge um pouco às pessoas mais afoitas e menos atentas...Elas acabam agindo sem pensar, impulsionadas normalmente por um clamor popular que parece justificar a desordem...não quero dizer que devamos todos seguir cegamente qualquer regra, ao contrário, nesse sentido serei sempre subversiva, irei me contrapor ao status quo até que ele me mostre ser válido, mas não se pode fazer isso de qualquer maneira, tem que haver debate profundo para verificar a validade de qualquer ação.

Acredito que esta é uma das missões da filosofia, fazer com que as pessoas compreendam que não é porque a maioria apóia tal ou qual opinião que ela passa a ser verdadeira e válida. Há que se duvidar sempre. Neste sentido, melhor que o senso comum, seria o bom senso. Infelizmente, em um país como o nosso, ainda vence a maioria, que não tem acesso a uma educação séria e age por impulsos dogmáticos. O que podemos fazer, e o que eu tento fazer enquanto professora, é tentar ajudar cada vez mais pessoas a pensar por si e não acatar prontamente qualquer tipo de clamor popular. Não é fácil, mas é necessário.